Jovem pernambucana cuida de quase 300 animais – mesmo enfrentando dificuldades

Quando crianças, muitas meninas gostam de brincar de boneca e sonhar com contos de fada, finais felizes e muitas coisas mágicas e encantadoras. Mas não a pernambucana Rafaela Sullivan, que quando tinha apenas sete anos teve sua vida marcada para sempre após ver um gatinho em situação de completo abandono nas ruas de Lajedo, uma pequena e esquecida cidade no Agreste de Pernambuco.

Mesmo convivendo com animais domésticos desde a infância, o encontro foi inesquecível, mas, infelizmente, não teve um final feliz. Rafaela não pode adotar o gatinho e isso não saia de seus pensamentos. Ela passou a cuidar dele de forma imaginária e o chamou de Mimi. A menina fez uma caminha, dava alimento e brincava com ele como se fosse real. Ali nascia aos poucos o desejo de fazer algo para impedir que mais animais fossem abandonados nas ruas.

Essa sensibilização cresceu junto com Rafaela e quando ainda era uma adolescente e estudante do ensino médio conheceu a cadelinha Lisa. Uma peludinha pretinha sem raça definida muito magra e debilitada. Ela foi encontrada deitada em uma avenida em meio a carros que passavam velozmente.

A cachorra estava tão fraca que mal conseguia se levantar. Rafaela cuidou dela da melhor forma possível. A alimentou, medicou e mesmo com rotina corrida de estudos e preocupações com o vestibular, deu a Lisa uma família de verdade. A cadelinha viveu ainda oito anos em seu novo lar e faleceu naturalmente devido à idade avançada.

Projeto

Ver a reabilitação de Lisa foi o que Rafaela precisava para tomar uma ação em prol dos animais da cidade onde vivia. Ela prestou vestibular para Medicina Veterinária na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e passou. Mas a partir daquele momento suas verdadeiras provações começariam.

Rafaela se dedicava a alimentar e medicar os animais em situação de rua, mas sabia que isso não era o suficiente para combater os maus-tratos e o abandono. Ela começou a delinear a possibilidade de ter um centro de reabilitação, onde os animais pudessem ser recuperados, esterilizados e disponibilizados para adoção responsável. Mas na prática, as coisas não aconteceram como o esperado.

A jovem conta que os resgates se tornaram mais frequentes que as adoções e assim o projeto começou a exigir cada vez mais dela. “Isso (adoções) só acontece com mais frequência em capitais, cidades grandes. Porque aqui no interior de Pernambuco é completamente diferente, as pessoas não têm essa noção”, disse em entrevista à ANDA.

Os obstáculos não a desanimaram e assim nasceu a Associação de Resgate e Proteção aos Animais de Lajedo (ARPAL). Que atua há quase 10 anos sendo uma das principais referências sobre proteção animal na cidade. Abrigando hoje cerca de 250 animais, entre cães e gatos. A ONG sobrevive com a ajuda de doações, trabalho voluntário e um pequeno apoio da prefeitura, que garante 15 dias de alimentação para os animais.

ARPAL

A ARPAL nasceu em meados de 2007 com o objetivo de amparar os cães e gatos em situação de rua da cidade. “É um descaso total, ninguém liga para a causa animal aqui. É muito difícil conscientizar as pessoas. Elas não têm a mente aberta para isso”, desabafa a jovem.

A associação ganhou seu CNPJ em 2013 e já contou com a participação de muitas pessoas desde sua criação. Mas a colaboração é sempre temporária, muitos têm interesse em ajudar, mas possuem compromissos pessoais que os impedem de se dedicar ativamente e rapidamente se dispersam.

Além das dificuldades de cuidar dos animais no dia a dia, Rafaela também explica que muitas vezes depende de doações de pessoas que mal possuem o suficiente para se sustentar. “As pessoas que menos têm sãos as que mais ajudam. São as que mais dividem suas comida com eles (os animais). Que mais se sensibilizam, por saber o que é passar fome, por saber o que é estar doente e não ter um socorro. Graças a essas pessoas a gente consegue fazer o nosso trabalho”, conta.

Nos mais de 10 anos de atuação da ARPAL Rafaela coleciona muitas histórias de desamor e desamparo. Em entrevista à ANDA por telefone, ela compartilha muitas das dificuldades pelas quais passou. A jovem lembra que no início do projeto, com a ajuda da prefeitura, conseguiu acesso a uma casa abandonada para abrigar 45 cães. Entre eles, animais especiais, deficientes, doentes e sem nenhuma chance de sobreviver nas ruas.

Propriedade rural

Infelizmente, muitos moradores do entorno se incomodaram com a presença e latidos dos animais e a denunciaram ao Ministério Público. Ela foi intimada e obrigada a retirar os animais em apenas 15 dias. A promotora responsável pelo caso demonstrou completa insensibilidade pela situação dos cães. Felizmente, graças a ajuda de amigos, ela conseguiu alocar os animais em uma propriedade rural distante.

Rafaela dividiu também, que após a morte de sua mãe, enquanto ela ainda era universitária, foi expulsa de casa devido a quantidade de animais que abrigava. A jovem encontrou refúgio na casa de familiares e ainda hoje, já formada, tem dificuldade de ser independente, pois o seu pequeno salário como médica veterinária em uma clínica particular é totalmente revertido para o cuidados dos animais.

No entanto, ela não lamenta seu passado e agradece sempre pela oportunidade de evoluir como ser humano. “Não foi fácil, ainda não é fácil falar sobre isso. Mas faz parte de tudo que eu passei e passo para manter a causa viva aqui na cidade e manter esses animais protegidos. Porque são muitos maus-tratos e o amor que a gente sente quando conhece profundamente um animal… Eles falam tudo no olhar deles. Precisei passar por tudo isso para me tornar forte”, disse.

Rafaela conta que a rotina é pesada e as dívidas se multiplicam exponencialmente. Para a construção de um local acessível e e confortável para os animais, ela financiou a compra de terrenos em seu próprio nome. As prestações estão atrasadas e ela ainda não conseguiu recursos para construir baias, casinhas, colocar piso e outros detalhes.

Meio de locomoção é uma bicicleta

A jovem não possui carro e seu único meio de locomoção é uma bicicleta que é utilizada para recolher doações de materiais de limpeza, comidas doadas em baldes por restaurantes. Além de catar papelão e garrafas pet para vender. Todo o trabalho de limpeza, medicação e alimentação dos animais é feito com a ajuda de dois voluntários, que são seus braços direitos.

A veterinária não tem vida social, todo o seu tempo é dedicado a cuidar de animais. Ela é a favor da vida e contrária ao sacrifício de animais, independente do motivo. Sua conscientização sobre o valor da vida animal veio após resgatar a cadelinha Cindy, que foi covardemente abandonada em frente a um dos locais onde ela teve um canil improvisado.

A cadelinha não andava e precisava de cuidados 24h por dia. Cindy precisava ser mantida em uma maca e usava fraldas, que precisam ser trocadas regularmente para evitar feridas e assaduras. Apesar de ver o sofrimento da cadelinha, Rafaela sabia que existia um motivo para o animal estar vivo. E ela jamais poderia abreviar a natureza submetendo Cindy à morte induzida.

“As pessoas sacrificam os animais achando que eles estão sofrendo. Mas não, tudo que eles é estar até seu último suspiro de vida deles ao nosso lado. Ninguém tem o direito de tirar a vida, o sofrimento físico é um estado que precisamos para evoluir. Eu acredito nisso, tendo cura ou não”, diz a veterinária.

Necessita ajuda

Agora, Rafaela luta para manter os animais acolhidos pela ARPAL, as suas maiores necessidades no momento são ajuda para alimentação dos cães e gatos. Vacinação para evitar mortes em massa de animais por doenças infecto-contagiosas. Ajuda para custear materiais de construção e mão-de-obra para construir instalações para os animais. E também recursos para contratar e oferecer um salário para os voluntários, pois um dos maiores receios da veterinária é que eles, por necessidades financeiros, se recoloquem no mercado de trabalho e não possam mais ajudar os animais.

Se você mora em Lajedo e região e tem interesse em ajuda a ARPAL basta colaborar depositando qualquer valor em um dos cofrinhos que foram disponibilizados em diversos comércios da região. Também é possível ajuda depositando qualquer quantia na conta da associação: Agência: 2244-6, Conta Corrente: 24.483-0. Para entrar em contato com a ARPAL basta enviar uma mensagem por inbox para a Rafaela clicando aqui.

Risco do trabalho parar

Sem doações o trabalho da associação pode ser interrompido a qualquer momento. Uma vez, devido à escassez de ração, os cães tiveram que se alimentar com biscoitos de canela, os únicos à venda em um mercado local, para não passarem fome. Apenas cinco pessoas doam regularmente e os cofrinhos arrecadam poucos valores. Os animais precisam emergencialmente de ajuda para sobreviver. As portas da ARPAL estão abertas para todos que queiram conhecer a situação real dos animais e ajudá-los.

As dificuldade são muitas, mas Rafaela ainda nutre sonhos de viver em mundo melhor, para ela, a maior realização seria “não existir animal abandonado, não presenciar maus-tratos, não ver animal passando fome. Mais pessoas conscientes, pessoas que se sensibilizam com o sofrimento do próximo”, revela.

Ela conclui ainda afirmando que cuidar dos animais não é apenas uma questão de compaixão. É também uma forma de preservar a saúde da população impedindo que a proliferação de doenças. “Cuidar dos animais, é também cuidar das pessoas”, finaliza.

Fonte: ANDA

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